Ontem eu vi um cara

Ontem eu vi um cara.
Não era belo, não era feio, era apenas um cara.
Seu rosto era composto de uma barba rala, mal feita; uma ou duas noites mal dormidas que causaram um roxo profundo de olheiras mas, o que realmente me chamou atenção naquele cara era a ausência da própria sombra ao passar pela luz.
Era noite, um poste após outro ele ia passando, e a sombra ligada a seus pés não se formava, não andava junto.
Seu olhar era marcante. Um olhar distante, longo, perdido.
Esse homem andou até a mais alta ponte seca da cidade.
Subiu no parapeito e olhou para baixo.
Seu cabelo desgrenhado voava ao vento enquanto ele analisava a queda.
Então o homem, que já tinha decidido o que estava para fazer, colocou os pés mais para frente, alinhados com o final da ponte.
E com aqueles olhos azuis e a face cansada ele me viu.
E com o susto que teve, se desequilibrou e seu corpo foi jogado pra trás, fazendo-o cair com as costas no asfalto.
Foi então que uma luz muito forte o iluminou.
Uma luz forte, que mesmo parecendo poder cegá-lo, ainda assim não produziu sombra alguma.

Então minha missão foi cumprida. Seu crânio foi achatado pelas rodas do caminhão.

Prazer, eu sou a morte!

E quando até mesmo a sombra é capaz de te abandonar, é sinal de que eu estou espreitando... E de uma maneira ou de outra, eu vou te levar...